Padres Apostólicos - Papias

03/03/2014 15:34

 

Pápias

   I-Vida

     Estamos frente a “uma das personagens mais misteriosa da antiguidade cristã. Pouquíssimo sabemos sobre ele, e as poucas notícias que temos dão lugar, por parte dos historiadores, à discussões intermináveis”.

    Pápias viveu, aproximadamente, entre os anos 70 a 140 d.C. Segundo os testemunhos que se têm, era bispo de Hierápolis, na Frígia, atual Pambukcallesi turca. Foi contemporâneo e amigo de Inácio de Antioquia e de Policarpo de Esmirna. Segundo Ireneu de Lião, teria sido discípulo do apóstolo João. Conforme Eusébio de Cesaréia, Pápias fora discípulo dooutro João”, o “presbíteroe não do apóstolo João (HE, III, 39,15ss).

       Ainda conforme Eusébio, Pápias era um pensador apenas medíocre, fraco e sustentava idéias judeu-cristãs e o qualifica de “homem de inteligência em extremo escassa, como o demonstram seus livros”. De fato, alguns dos fragmentos que restam de sua obra confirmam a pouca inteligência do autor. Afirmações exageradas atribuídas a Jesus muito próximas dos evangelhos apócrifos, sobre a fertilidade da terra, sobre o milênio do reino de Jesus, depois que a criação for renovada e libertada e a lendas referentes à morte de Judas. Seus fragmentos falam somente dos evangelhos de Mateus e Marcos. Nada dizem dos evangelhos de Lucas, das cartas de Paulo e do próprio Evangelho de João.

 

 

INTRODUÇÃO

    Jerônimo, no De viris Illustribus 18, diz que “Pápias, discípulo de João, bispo de Herápolis, na Ásia”, não escreveu senão cinco volumes, que intitulou Explicações dos discursos do Senhor. Afirma, no prefácio, que não segue variedade de opiniões, mas procura a verdade na tradição oral vinda dos apóstolos e discípulos do Senhor, preferindo-a aos livros, pois é “palavra viva e permanente.”

 

  II- Obras

    Pápias escreve, por volta do ano 130, uma obra me cinco volumes, intitulada: Explicações das sentenças do Senhor (Logion Kuriakôn Ecsegéseis). Baseado, principalmente, na tradição oral dos discípulos e apóstolos, Pápias apresenta uma coleção de ditos, sentenças e feitos de Jesus e de seus discípulos. Trata ainda da origem dos evangelhos de Mateus e de Marcos. Entre estas testemunhas, Pápias menciona Aristão, o “ancião” João e as filhas de Filipe. Destes cincos volumes, restam apenas 13 pequenos fragmentos, conservados nas obras de Ireneu de Lião e de Eusébio de Cesaréia. Mas, em vez de tradição genuína, Pápias parece ter, segundo Altaner, ‘apenas compilado, prevalentemente, escritos lendários e trechos de apocalipse judaico, tardios, oriundos do ambiente dos presbíteros da Ásia Menor”. Ao lado da defesa do milenarismo, esta ausência de sentido crítico na seleção e  interpretação das fontes, parece ter sido a razão do juízo severo de Eusébio sobre Pápias.

   Apesar destes pontos fracos, os fragmentos que restaram são de inestimável valor porque põem o leitor atual em contato com o ensino oral dos discípulos dos apóstolos.  Além disso, trata-se da primeira obra de exegese do Novo Testamento. Pápias foi o primeiro a aplicar a palavra clássica exegese (ecségesis), que já há muito tempo significava interpretação ou comentário. É ele também quem nos fornece as mais antigas informações sobre a composição dos evangelhos de Mateus e Marcos, textos sempre procurados por quantos se ocupam da questão das origens e autenticidade dos evangelhos. Seu nome torna-se obrigatório em toda introdução ao Novo Testamento. Segundo ele, pois, Mateus compôs seu evangelho no “dialeto hebraico”, afirmação que suscitou muita discussão entre os estudiosos. O evangelho de Marcos não é outra coisa que a interpretação da pregação de Pedro adaptada às várias circunstâncias. A duplicidade dos nomes João, serve de fundamento para longas discussões. Assim, alguns dizem que o Apocalipse teria por autor João, “ancião”, e o Evangelho, João, o Apóstolo.

   Para se ter uma ideia de sua obra, convém ler o prefácio que o próprio Pápias escreveu e que foi conservado por Eusébio, na HE, III, 39, 3-4: Para ti eu não hesitarei em acrescentar às minhas explicações o que outrora ouvi muito bem dos presbíteros, e cuja lembrança guardei muito bem, pois estou seguro de sua verdade. De fato eu não me comprazia, como faz a maioria, com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade; eu também não me comprazia com que recordam mandamentos alheios, mas com os que recordam os mandamentos  dados pelo Senhor à fé e nascidos da própria verdade. Se acontecia, por acaso, vir algum dos que tinham seguido os presbíteros, eu me informava a respeito da palavra dos presbíteros: o que haviam dito André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus ou qualquer outro dos discípulos do Senhor. E também o que dizem Aristão e o presbítero João, discípulo do  Senhor. Eu não pensava que as coisas conhecidas pelos livros não me ajudassem tanto quanto as coisas ouvidas, através da palavra viva e permanente.

 

III- O milenarismo

  Uma das críticas que Eusébio dirige a Pápias é o foto de ele ter-se inclinado com muita fé para o milenarismo. Esta fé teria nascido de uma interpretação muito literal de Ap 20, 4, onde se lê: “... Vi também as vidas daqueles que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e dos que não tinham adorado a Besta, nem sua Imagem, e nem recebido a marca sobre a fronte ou a mão: eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos”. Nota a Bíblia de Jerusalém, sobre este versículo: “Esta ressurreição dos mártires (...) é simbólica: é a renovação da Igreja depois do término da perseguição romana, com a mesma duração que o cativeiro do Dragão. (...) O “reino de mil anos” é, portanto, a fase terrestre do reino de Deus, desde a queda de Roma, até à vida de Cristo. Para santo Agostinho e muitos outros, os “mil anos” se iniciam com a ressurreição de Cristo; “a primeira ressurreição” seria então o batismo (...) – Desde a Igreja antiga, uma corrente da Tradição interpretou literalmente este versículo: após uma primeira ressurreição real, a dos mártires, Cristo voltaria sobre a terra para um reino feliz de mil anos, em companhia de seus fiéis”.

 

PÁPIAS DE HIERÁPOLIS

 

A prosperidade no Dia do Senhor

 

   Quando também a ação, renovada e liberta, frutificar profusamente todo tipo de comida, graças ao orvalho do céu e à fertilidade da terra, do modo como recordam os anciãos que viram João, discípulo do Senhor, ouvindo-o da maneira como o Senhor ensinava a respeito desses tempos:

   “Haverá dias em que nascerão vinhas, que terão cada uma dez mil videiras; cada videira terá dez ml ramos, e cada ramo terá mil ramos; cada ramo terá dez mil cachos, e cada cachoa terá dez mil grãos, e cada bago espremido dará vinte e cinco metretas de vinho. Quando um dos santos pegar um cacho, o outro gritará: “Pega-me, porque eu sou melhor, e por meio de mim bendize ao Senhor.” Do mesmo modo, um  grão de trigo dará dez mil espigas, e cada espiga terá dez mil grãos; cada grão dará dez libras de farinha branca limpa. Também os outros frutos, semente e ervas produzirão nessa mesma proporção. Todos os animais que se nutrem desses alimentos, que recebem da terra, se tornarão pacíficos e viverão harmoniosamente entre si. Eles se submeterão aos homens sem qualquer relutância.”  

    Isso também atestou por escrito no seu quarto livro, Pápias, homem antigo, discípulo de João e companheiro de Policarpo. De fato, ele escreveu cinco livros. E acrescentou:

    “Essas coisas merecem fé para os que acreditam. E como diz Judas, o traidor, que não acreditava e perguntou: “Então como serão realizadas pelo Senhor tais produções?”

O Senhor respondeu: “Os que chegarem a esses tempos o verão.” (Apud Ireneum, Adv. Haer, V,33,1-5).

 

A obra de Pápias

 

    São cinco o número dos escritos que levam o nome de Pápias, intitulados: “Explicação de sentenças do Senhor”. Ireneu também menciona esses como os únicos escritos de Pápias, dizendo o seguinte: “Isso também atestou por escrito Pápias, discípulo de João e companheiro de Policarpo, homem antigo, no seu quarto livro, porque ele compôs cinco livros.” Este é o testemunho de Ireneu.

    Na verdade, o próprio Pápias, na introdução de seus discursos, não afirma de modo nenhum ter sido ouvinte dos santos apóstolos, nem de tê-lo conhecido pessoalmente. Ele ensina, porém, com as mesmas expressões que usa, ter recebido o que se refere à fé daqueles que foram familiares dos próprios apóstolos:

   “Para ti eu não hesitarei em acrescentar às minhas explicações o que outrora ouvir muito bem dos presbíteros, e cuja lembrança guardei muito bem, pois estou seguro de sua verdade. De fato, eu não me comprazia, como faz a maioria, com os que falam muito, mas com os que ensinam a verdade; eu também não me comprazia com os que recordam mandamentos alheios, mas com os que recordam os mandamentos dados pelo Senhor à fé e nascido da própria verdade. Se, por acaso, acontecia de chegar algum dos que tinham seguido os presbíteros, eu me informava sobre a palavra dos presbíteros, isto é, o que tinham dito André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus ou outro discípulo do Senhor. E também o que falam Aristão e João, o presbítero, discípulos do Senhor. Eu não achava que as coisas conhecidas pelos livros pudessem me auxiliar tanto quanto as coisas ouvidas através da palavra viva e permanente” (Eusébio de Cesaréia, HE, III,39,1-4).

 

 Comentário de Eusébio

    Vale a pena observar que Papias menciona duas vezes o nome de João. Primeiramente, relaciona-o juntamente com Pedro, Tiago, Mateus e os demais apóstolos, indicando claramente o evangelista. Porém, o segundo João - após cortar a frase - é colocado à parte, alheio ao número dos apóstolos, antepondo a este Aristão, e lhe dá, claramente, o título de presbítero. Dessa forma, também por esse testemunho, se comprova a realidade histórica dos que contam que houve na Ásia duas pessoas com o nome de João e que, em Éfeso, havia duas sepulturas que, ainda hoje, são atribuídas a João. É preciso se atentar para esses fatos, pois é verossímil que o segundo - se este não for o primeiro - foi aquele que viu a revelação transmitida sob o nome de João.

Papias , de quem já falamos, reconhece ter recebido as palavras dos apóstolos diretamente daqueles que os seguiram; por outro lado, diz ter sido ouvinte pessoal de Aristão e João, o presbítero. De fato, ele frequentemente os menciona pelos nomes em seus escritos, transmitindo a tradição deles. (Eusébio de Cesaréia, HE, III,39,5-7).

 

 Outros relatos de Pápias

 

Não é inútil dizer tais coisas. Vale a pena acrescentar outros relatos às já citadas palavras de Papias , onde narra outros casos extraordinários, informando que chegaram até ele pela tradição.

   "Já falamos anteriormente sobre a estada do apóstolo Filipe em Hierápolis, juntamente com suas filhas. Notemos, agora, como Papias , que viveu nessa época, cita ter recebido das filhas de Filipe o relato de uma história maravilhosa. Conta ele que, em seu tempo, ocorreu a ressurreição de um morto. Além disso, outro prodígio aconteceu com Justo, cognominado Barsabás: conta-se que teria bebido veneno mortífero e, por graça do Senhor, nada sofreu. Conta-se, segundo o livro dos Atos, que essa mesma pessoa foi colocada pelos santos apóstolos junto com Matias, depois da ascensão do Salvador, quando [os apóstolos] oraram para que a sorte completasse o número deles, substituindo Judas, o traidor: ‘E eles colocaram dois homens, José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias; e oraram dizendo…’".

O próprio Papias acrescenta outras coisas que teriam chegado até ele através da tradição oral, além de certas parábolas e ensinamentos estranhos do Salvador, além de outras coisas de natureza mais fabulosa. (Eusébio de Cesaréia, HE, III, 39,8-11).

 

O milenarismo

   Entre essas coisas, diz que um milênio se estabelecerá após a ressurreição dos mortos e, a seguir, o reino de Cristo se fixará fisicamente na nossa terra. Creio que essa sua opinião é fruto de uma má interpretação dos ensinamentos dos apóstolos, de forma que ele não compreendeu as coisas que diziam de maneira figurada e simbólica. A verdade é que, pelo que se pode deduzir de seus próprios discursos, Papias parece ser homem de inteligência curta. Assim, ele é o culpado de vários escritores da Igreja que lhe sucederam terem adotado sua opinião, por confiarem em sua antiguidade. Foi isso que aconteceu com Ireneu e outros que pensavam igual a ele.

   Papias também transmite em sua obra outras explicações para os discursos do Senhor, segundo o que ouviu do citado Aristão e das tradições de João, o presbítero. Remetemos à essas obras todos aqueles que têm interesse em conhecê-las. (Eusébio de Cesaréia, HE, III,39,12-14ª).

 

Os dois primeiros Evangelhos

    Contudo, achamos necessário acrescentar ao que já dissemos sobre Papias , o que a tradição expõe sobre Marcos, que escreveu o evangelho. Assim se expressou:

“O presbítero também dizia o seguinte: ‘Marcos, intérprete de Pedro, fielmente escreveu - embora de forma desordenada - tudo o que recordava sobre as palavras e atos do Senhor. De fato, ele não tinha escutado o Senhor, nem o seguido. Mas, como já dissemos, mais tarde seguiu a Pedro, que o instruía conforme o necessário, mas não compondo um relato ordenado das sentenças do Senhor. Portanto, Marcos em momento algum errou ao escrever as coisas conforme recordava. Sua preocupação era apenas uma: não omitir nada do que havia ouvido, nem falsificar o que transmitia’”.

Esse é o relato de Papias sobre Marcos. Sobre Mateus, diz o seguinte:

“Mateus reuniu, de forma ordenada, na língua hebraica, as sentenças [de Jesus] e cada um as interpretava conforme sua capacidade”.

Papias também testemunha a primeira epístola de João e, igualmente, a de Pedro. Fora isso, conta outra história a respeito de uma mulher acusada de muitos pecados na frente do Senhor, história essa contida no Evangelho segundo os Hebreus. É preciso que acrescentemos isso ao que já foi dito. (Eusébio de Cesaréia, HE, III, 39,14-17).